Os Chipaias do Cerrado e seus Caxiris, Cauim e Hidroméis


Vou te contar a história dos Chipaias, povos originais do Cerrado Brasileiro e seus hábitos etílicos

São 12 mil anos de evolução dos ameríndios no Cerrado o segundo maior domínio fitogeográfico do Brasil. Fisionomias campestre, savânicas e florestais com rios, lagoas, veredas, chapadas, montanhas e planícies.

É o berço das águas, com solo profundo ligado a lençóis freáticos, detentor da maior farmacopeia do Planeta, com a fauna adaptada as mais diversas condições. Mas nem sempre foi assim.

No Período Pleistoceno o Planalto Central era frio, seco e árido, um local totalmente inóspito. Durante a transição para o Período Holoceno, houve um recuo das glaciações, as geleiras andinas e polares foram reduzidas, subiu o nível do mar e consequentemente esquentou as correntes vindas das Malvinas, permitindo o aumento da temperatura e umidade. De acordo com Morales (2005), as mudanças possibilitaram o aumento na média de temperatura, trazendo chuvas que aumentaram os índices pluviométricos, num efeito conhecido como “Tropicalização do ambiente”.

Essa Tropicalização deu a brecha para o início da expansão dos ameríndios nas novas florestas tropicais, que diminuíram a incidência da Caatinga e Cerrado, viabilizando a adaptação destes povos caçadores e coletores que agora poderiam passar a se estabelecer por períodos mais longos nos territórios. Uma crescente variedade de plantas, frutas, ervas, raízes e animais passaram a ser ofertadas pela natureza abundante no decorrer de séculos.

Às margens esquerdas do Rio Tocantins foram descobertos vestígios antigos enterrados em dunas de mais de 11.000 anos. De acordo com DeBlasis & Robrahn-González (2003) se tratava de ocupações pouco prolongadas (como acampamentos) e os resquícios estudados apontam que em decorrência do acabamento ou restauro dos artefatos aliada à ausência de remanescentes corticais nas lascas, provam que vieram de outro lugar. Logo, se tratava de povos nômades que se abrigavam temporariamente em áreas de refúgio florestal.

Os cientistas também ficaram impressionados com o requinte tecnológico de artefatos datados de 8.900 e 10.500 anos atrás. Estas armas encontradas em antigos assentamentos são sistematicamente localizadas ao longo do curso dos locais com atrações ambientais nas zonas de transições ecológicas, pois se encontravam mais animais para a caça.

Segundo Bueno (2005) essa seleção de matérias primas de melhor qualidade (como sílex e finas variedades de arenito silificado) está ligada a uma tecnologia de um horizonte paleo-indígena que tinha inclusive uma padronização nos itens pois em diferentes locais se encontraram com as mesmas características.

Com a passagem de anos, séculos e milênios, a grande maioria dos vestígios dos povos antigos acabaram se misturando a outros povos mais recentes. Logo, várias ocupações são validadas pela passagem de vários grupos que deixaram seus rastros. Além da parafernália de caça, durante o Período Antigo (9 a 12 mil anos) e Período Intermediário (5 a 6 mil anos atrás), também foram resgatadas cuias e cabaças -que eram usadas normalmente para servir bebidas em rituais e celebrações-, panelas para a decocção de alimentos, e, potes de cerâmica -normalmente para fermentar bebidas ancestrais, carregar sementes, conservar alimentos entre outras funções.

Os sítios com maior produtividade na agricultura neolítica, eram matas galerias ou florestas inter fluviais de matriz savânica. Na Tradição Una os abrigos estavam próximos a leitos de rios ou lagoas, sinalizando alta atividade na produção do milho, amendoim, feijão e cabaças. Se deslocavam sem a necessidade e a ambição de explorar, nunca mataram animais a esmo ou saíam devastando as terras como se não houvesse o amanhã.

Seja descoberto ao acaso, manipulando espécies selvagens próxima das habitações, com a observação de sementes ou grãos que brotaram espontaneamente; seja em manifestações místicas com o lanço de sementes silvestres para oferendas que depois virariam alimento numa transformação divina, eles passaram a adotar técnicas variadas para suprir suas necessidades vitais graças a sua sensibilidade e observação nos detalhes da natureza. As tentativas, fracassos e sucessos foram sendo transmitidas de geração em geração, numa linhagem de comunidades que deixavam de sair dum modo de vida nômade e passavam e se estabelecer em locais favoráveis ao novo estilo de vida.

No Brasil Central, pequenas plantações de milho, leguminosas e cabaças da tradição Una, tendo os primeiros horticultores e ceramistas deste Bioma não são anteriores a 3.500 anos de acordo com Barbosa (2002). “Tal domínio ecológico foi colonizado por homens errantes, caçadores coletores vindos dos Andes há cerca de 12.000 anos, 6.000 anos antes da formação do Centro Andino de difusão cultural agrícola (…) o surgimento da agricultura do Brasil Central foi independente da influência andina, muito embora essa tenha sido a região fonte dos primeiros povos brasileiros”. (Barbosa; Schimiz, 1998)

Os povos nativos eram observadores, pacientes por compreender cada ciclo da natureza, possuidores de um conhecimento farto ancestral, resilientes, hábeis aplicadores da magia e curandeirismos, sagazes na caça e coleta, guardiões de sementes, construtores de ocas, canoas e jangadas, artistas com suas pinturas rupestres e em artigos de celebrações (como cuias e potes de cerâmica encontrados pelos paleontólogos, artesãos com o capim dourado e a palha de palmeira que confeccionava cestos e artigos para enfeitar o lar. Exímios criadores de artefatos super resistentes para garantir o sucesso da caça, e, manjavam muito sobre agricultura, conhecendo técnicas de propagação e utilizando ao máximo as propriedades medicinais da flora, assim como dos aspectos nutricionais dos alimentos.

Quando dei o ponta pé nessa pesquisa, corri para as obras antigas, conferindo os arquivos dos Europeus que reescreveram a nossa estória quando vieram colonizar a Terra Brasilis, desde a Carta de Pero Vaz de Caminha, às obras do missionário Cardim, do franciscano Thevet e os mapas de Curt Nimuendaju.

As referências sempre trazem a ótica do gringo com base na realidade deles, onde os nossos povos são muitas vezes vistos com rebaixamento e inferiorizados como sociedade. Uma verdadeira carta branca para que eles pudessem justificar a nossa colonização de exploração em benefício da Coroa e interesses de Portugal.

Embora em alguns momentos os colonizadores observassem algumas qualidades nos índios, como descreve Abreu (1907): “Tinham os sentidos mais apurados, e intensidade de observação da natureza inconcebível para o homem civilizado. Não lhes faltava talento artístico, revelado em produtos cerâmicos, trançados, pinturas de cuia, máscaras, adornos, danças e músicas.” os europeus não estavam muito a fim de aprender algo ou trocar informações e conhecimentos com os nossos povos originários. E essa frase continua assim: “Das suas lendas, que às vezes conservavam a noite inteira acordados e atentos, muito pouco sabemos: um dos primeiros cuidados dos missionários constituía e consiste em apagá-las e substituí-las”.

Lamentável que os mesmos homens que levavam a palavra de Deus e prometiam a salvação, também eram os mesmos que se tivessem recursos na época fariam uma lobotomia nos povos originários para impor o cristianismo, hábitos e tradições européias.

No livro “A religião dos Tupinambás e suas relações com as demais tribus tupi-guaranis” (Métraux, Alfred 1925-1948) localizei uma etnia que viveu entre outros lugares do Brasil, no centro oeste do Mato Grosso, habitando também a Bolívia. Os Chipaias de acordo com Métraux, apresentam uma forte ligação com a natureza e seus elementos e a antropofagia, repleta de lendas, mitos, magias e rituais.

Dentre os rituais, uma oferenda a Kumãqáry (demônio que pede por carne humana) que envolvia toda a aldeia. O homem saía para caçar a vítima que seria ofertada, podendo levar dias nesta missão; as mulheres ficavam na função de tecer sapatos vermelhos de algodão, preparar os alimentos e as bebidas para o ritual.

A mandioca e sua versatilidade gastronômico-etílica, faz o tradicional Caxiri, preparado exclusivamente pelas mulheres da comunidade para rituais sagrados e profanos, há um grande respeito em todo o processo. O preparo com essa raiz autóctone da América Tropical, de acordo com Gouveia (2020) também poderia ser realizado com frutas silvestres, milho e batatas agrestes. Através do Caxiri, o pajé entraria em contato com o mundo espiritual sobrenatural, e tanto o recipiente quanto a bebida passam a ser entidade na cosmogonia indígena.

Normalmente o preparo era feito com a fervura das raízes da mandioca, em grandes recipientes por um tempo considerável. A massa que se formava era transferida então para outros potes até cair para uma temperatura mais fresca, só então as mulheres poderiam começar a mascar e cuspir em outro pote. Com a diluição correta, era misturado e alocado em vasilhas decoradas com figuras místicas e/ou desenhos geométricos. Nessa fase, era enterrado até a metade e tampado para iniciar a fermentação.

Após alguns dias, normalmente quando o bravo caçador retornava com a vítima, o Caxiri já estava pronto, apresentando alta densidade, potência alcoólica e valores nutricionais. A vítima que ficara em situação de refém, era bem tratada e recebia alimentos, bebidas e sempre era “ofertada” uma “esposa” provisória. Tudo isso até chegar o momento do ritual.

No início do ritual, o caçador iniciava a cantoria, tinha aplicado uma tintura com jenipapo no corpo (que muitas vezes era usado também em rituais de purificação medicinal), colocava os sapatos de algodão vermelho apenas durante o cerimonial para que não tivesse contato com o chão, e os convidados do ritual que também fossem se alimentar da vítima, tinham pinturas no rosto (no entorno da boca principalmente), identificando que apenas eles poderiam comer a carne humana. A cabeça da vítima era decepada, os olhos e a língua eram devorados, assim como as pernas e os braços também eram removidos.

Arcos disparavam as afiadas flechas nas pernas e braços da vítima. Os chipaias acreditavam que no plano espiritual a vítima poderia escapar. Deste modo, não teria olhos para ver, língua para falar, braços para atacar e pernas para correr. Depois disso tudo, a cabeça era colocada em uma estaca longa na entrada da aldeia, para poder prever ataques e futuras ameaças, de acordo com a crença desta etnia.

Outra bebida típica destes povos era o Hidromel, feito com a fermentação da água com mel de abelhas ou marimbondos nativos. (Vale ressaltar que as abelhas eram certamente nativas pois a introdução das abelhas europeias se deu em 1839 quando o Padre Antonio Carneiro trouxe ao Brasil para produzir velas religiosas).

O preparo do “vinho dos deuses” como é conhecido em muitas culturas distintas, embora pareça simples possui certa dificuldade. A qualidade da água, a proporção dos insumos, condições do ambiente, pH baixo durante a fermentação, qualidade das leveduras selvagens e por aí vai. Métraux relata em seu livro que era servido em cabaças.

O Hidromel também era consumido em celebrações e rituais, assim como o Cauim, amplamente consumido pelas etnias do Cerrado. O Cauim é um tipo de “cerveja primitiva”, assim como o Caxiri elaborado apenas pelas mulheres com idades variadas (de virgens às anciãs, dependendo da crença da etnia). Cauim e Caxiri são tipos ancestrais de cervejas insalivadas: devem ser mascadas (seja batata ou mandioca) pois as enzimas das amilases salivares servem para quebrar o amido e começar a sacarificação, induzindo a etapa de fermentação.

Esses povos eram engenhosos e tinham o poder de criar antídotos diversos. Conheciam a alquimia para repelir insetos como mosquitos, evitar os ardores do sol, as picadas de persistentes insetos, curar ferimentos rasos ou profundos, tratos estomacais e enfermidades intestinais etc.

O urucum (bixa orella l.) por exemplo poderia ser utilizado desde corante corporal para guerras ou celebrações, quanto para proteger o corpo de picadas de insetos como carapanã e minimizar os danos causados pela radiação ultravioleta.

No Parque do Xingu, com diversa biodiversidade numa região de transição ecológica, estão os Caiapós e outras etnias indígenas. Utilizam a Etnoastronomia através das observações astronômicas, com o saber ancestral que ajuda a guiar seu calendário. Eles fazem um círculo do tempo na memória, um mapa onde são organizadas as atividades da aldeia, como plantar, pescar e caçar. Observam sempre o céu, se posicionam no meio da aldeia e se orientam no espaço com os pés virados para a nascente, que simboliza o caminho que o sol percorre “caminho da morte” e a cabeça fica virada para o poente e o umbigo ao centro virado para o zênite.

Alguns Tupinambás que durante a colonização tiveram contato e conflitos com os europeus no Rio de Janeiro e Bahia, foram para o Maranhão. A família Tupi Guarani desenvolveu sua própria astronomia, provavelmente quando deixou de ser nômade alguns séculos atrás e teve que adotar novas estratégias de sobrevivência. Configurando um calendário com colheita, previsão de chuvas, níveis da maré, também desenhavam no céu histórias de mitos, lendas e códigos morais. Para este povo, todos os elementos da natureza possuem um espírito protetor.

As ervas medicinais são preparadas à risca de um calendário anual rigoroso, como afirma a publicação na Scientific American Brasil. Curiosamente, 75 anos antes de Sir Isaac Newton realizar que a Lua Cheia e a Nova influenciam o fenômeno das marés, nossa família maranhense já sabia. A Lua Cheia possui até relação com os insetos, que ficam mais ativos durante este ciclo, assim como os animais, que estão mais atentos e ligeiros aos predadores.

Lua cheia sempre foi ruim para a caça pois a visão das presas consegue revelar detalhes ocultos na escuridão, já que os bichin tão espertos pacas! Resultados mais certeiros são na Lua Nova, ideais para montar arapucas ou se preparar para atacar com as compridas lanças ou arcos munidos de velozes flechas. Algumas vezes usavam as ervas venenosas ou resinas tóxicas para besuntar a ponta da flecha e causar danos graves para abater futuramente, em caso de animais grandes.

Em 1758 o médico sueco e botânico Karl von Linné fez a classificação dos seres vivos por noções de gênero e espécie. Conseguiu incluir 39 espécies entre mamíferos, aves, répteis e peixes nas quase 1.400 espécies catalogadas pelo astrônomo alemão Georg Marcgrave -considerado o primeiro naturalista a estudar a fauna brasileira. Linné deu os créditos à contribuição intelectual desta etnia à ciência da taxonomia e a comunidade internacional presou o seu respeito para a etnia aos Tupi-Guarani.

Atualmente com cerca de 80 etnias no Cerrado, povos como: Apinajé, Xerentes, Guarani-Kaiowá, Tapuias, Kraô-Kanela, Xacriabas entre outros, possivelmente conheçam esta técnica milenar.

Uma técnica que chama muito a atenção é dos Jê, descrito por Lévi-Strauss (1997) os cuidados desses povos dominantes do Cerrado em proteger as árvores sagradas ou com apreço. Aceiros cavados ou montes de terra nua, protegiam as palmeiras que as folhagens utilizavam para construir os tetos das ocas ou choças.

As frutíferas como o Araticum, Cagaita e a Mangaba eram poupadas, e outras espécies com propriedades medicinais e repelentes de insetos também estavam a salvo. É muito provável que as frutas e ervas sagradas fossem também utilizadas em fermentativos ancestrais, juntos com mel e água, e algum tubérculo fonte de amido. Porém não encontrei nenhum registro do tipo para embasar este argumento.

Assim como o homem tinha o dever de cuidar das queimadas, as mulheres semeavam, abrindo as covas com galhos ou com as mãos. Estes povos sabiam a deficiência que o solo do Cerrado possui em minerais. As cinzas das árvores suprem essa necessidade do solo, que retribui com frutos, ervas, novos brotos e novos ciclos. Eles sempre souberam que bastava fazer a parte deles, que a natureza também faria a dela.

Deveríamos ser gratos por todo o conhecimento, encanto e magia que os povos originários nos deixaram de herança. Eles compartilharam a ancestralidade, o saber empírico, a engenhosidade, deram o maior exemplo de autonomia mesmo perante todas as dificuldades que tiveram, mostraram seus valores como civilização, passaram uma visão de mundo muito mais ampla do que somos capazes de compreender nos dias de hoje.

E cá estamos nós, 520 anos depois que os portugueses erraram feio o caminho mais curto para as Índias, passando a boiada neste domínio fitogeográfico riquíssimo e subestimado, queimando toda a savana que nos resta com uma finalidade totalmente oposta ao que os povos originários desenvolveram.

Nossos políticos estão articulados, removendo ou impedindo as demarcações das terras indígenas que são por direito destes povos. Aliás, nem recursos básicos de atendimento médico são prestados nas comunidades Cerrado a fora.

A pulverização de agrotóxicos nas reservas afeta hoje a qualidade de vida das pessoas, animais, água e solo, aonde a contaminação chega até os lençóis freáticos em prol de um rápido resultado para a indústria, acabando em décadas com os recursos que perduraram por milhares de anos. A falta de assistência médica não parece coincidência também, pois com o alimento e a água contaminada qual será a saída dos nossos índios?!

O ano é 2020 mas parece que seguimos persistindo no Colonialismo.



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